Reprodução e soltura dos periquitos cara-suja resultam de parceria entre entidades ambientais e o Parque Arvorar, e reacendem esperança para espécies ameaçadas no bioma Caatinga.
Oito indivíduos de periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus), ave nativa do Ceará e ameaçada de extinção, foram soltos na última terça-feira (08) na Reserva Natural Serra das Almas (RNSA), localizada no Planalto da Ibiapaba. A área, com 6.285,38 hectares, é reconhecida pela UNESCO como o primeiro Posto Avançado da Biosfera no estado desde 2005.
A ação foi coordenada pelo projeto Refaunar Arvorar, desenvolvido em parceria entre a ONG Aquasis, a Associação Caatinga e o Parque Arvorar, novo espaço temático do Beach Park voltado à educação e conservação ambiental.
Nascimento histórico após 114 anos

Entre os oito periquitos soltos, estavam os quatro primeiros filhotes nascidos na região após 114 anos de desaparecimento da espécie no local. Os filhotes são fruto da reprodução de um casal formado durante o processo de aclimatação na própria reserva.
A fêmea responsável pelos ovos foi recebida pelo Parque Arvorar em setembro de 2024, como fiel depositária por meio de uma ação do Ibama. O Arvorar abriga e reabilita animais silvestres provenientes de apreensões ou resgates realizados por órgãos ambientais, contribuindo diretamente com a conservação da fauna nativa.
Após um período de recuperação no Arvorar, a fêmea foi transferida para a RNSA e alojada em um recinto de aclimatação com outros dois indivíduos da espécie. Nesse ambiente controlado, ela pôde se reproduzir e colocar seis ovos férteis, dos quais quatro filhotes nasceram e sobreviveram.
Para aumentar a variabilidade genética e formar um grupo mais coeso, dois filhotes provenientes da Serra de Baturité foram integrados ao mesmo ninho no recinto de aclimatação. O grupo, agora formado por seis filhotes e os pais, foi mantido sob observação contínua pela equipe do projeto.
Processo de monitoramento e soltura

Desde o início da aclimatação, as aves foram monitoradas diariamente pelos técnicos do Refaunar Arvorar. O acompanhamento garantiu que os filhotes estivessem sendo devidamente alimentados e apresentassem desenvolvimento saudável, com capacidade de voo e socialização.
Segundo Fábio Nunes, gerente do Projeto Cara-Suja da Aquasis, o casal já estava apto para soltura anteriormente, mas foi mantido no recinto para não interromper o processo reprodutivo. Com os filhotes já voando, a soltura de todo o grupo se tornou possível.
“Os indivíduos que deram origem aos filhotes já estavam prontos para a soltura, mas os mantivemos no recinto da aclimatação para não atrapalhar a reprodução. Agora, com os filhotes voando e interagindo com outros pássaros da região, só faltava abrir o recinto e deixá-los viverem livres”, afirma Nunes.
A soltura recente integra um esforço continuado de reintrodução da espécie em seu habitat natural. Em dezembro de 2024, o projeto Refaunar já havia solto 18 aves na mesma reserva, todas preparadas após um período de aclimatação.
Na ocasião, três periquitos cara-suja apreendidos pelo Ibama e encaminhados ao Parque Arvorar também foram enviados para a reserva. Dentre eles, estava justamente a fêmea que agora gerou os primeiros filhotes registrados na região em mais de um século.
Importância ecológica e significado do projeto

O retorno do periquito cara-suja ao seu ambiente natural representa não apenas um marco simbólico, mas também uma estratégia concreta de recuperação da fauna da Caatinga, um dos biomas mais ameaçados do Brasil.
“Comemoramos cada passo desse processo. Desde as condições favoráveis para a aclimatação, passando pelo nascimento dos filhotes, até sua soltura. Esse é o propósito do Refaunar Arvorar e a razão de ser do Parque Arvorar”, destaca Leanne Soares, gerente do Parque Arvorar.
A iniciativa reforça a importância da integração entre instituições ambientais, órgãos públicos e espaços voltados à educação ambiental como caminho eficaz para a conservação da biodiversidade.









