1 milhão de resíduos a menos: pescadores limpam áreas asfixiadas pelo lixo nas baías de Guanabara e Sepetiba

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Ação do Projeto Do Mangue ao Mar remove 46 toneladas de resíduos e resgata o papel vital dos manguezais como berçários da vida marinha.

Os manguezais são berçários da vida marinha, escudos contra a erosão, filtros naturais da poluição e aliados no combate às mudanças climáticas. No entanto, esse ecossistema essencial vem sendo invadido pelo lixo urbano: só nas baías de Guanabara e Sepetiba, mais de 46 toneladas de resíduos foram retiradas por pescadores e catadores de caranguejo, por meio da Operação LimpaOca — iniciativa da ONG Guardiões do Mar, em convênio com a Transpetro. Em pouco mais de um ano, a força-tarefa resgatou mais de 1 milhão de itens descartados. O volume recolhido equivale à quantidade de lixo produzida por uma pequena cidade de 46 mil habitantes em apenas um único dia.

Na Baía de Guanabara, a operação ocorre na ‘Ilha de Lixo’ — onde plásticos, pneus, sofás e outros dejetos formam a ‘ilha’, localizada a aproximadamente 20 quilômetros dos manguezais da APA de Guapimirim. De lá, foram retirados 42.886 kg de resíduos, em 13 meses. A ação já contou, até agora, com a participação de 84 pescadores e catadores, de três comunidades do entorno (Saracuruna/Caxias, Suruí e Guia de Pacobaíba/Magé).

Já na Baía de Sepetiba, a mobilização é realizada na Ilha da Madeira, já tendo coletado 3.177 kg de resíduos, em três meses, envolvendo 21 caiçaras.

Renda extra

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Foto: Rodrigo Campanário

A ação também garante renda extra aos pescadores e catadores durante o período de defeso do caranguejo-uçá, de outubro a dezembro, quando é proibida a captura do crustáceo, uma das principais fontes de renda para muitas comunidades tradicionais pesqueiras. Eles recebem uma bolsa-auxílio para realizar a coleta durante duas manhãs semanais, por aproximadamente uma hora por dia.

Nessas operações, o período de coleta foi além do defeso, devido à extensão das áreas a serem limpas. Até agora, foram trabalhados 13 hectares: quatro na Baía de Guanabara e nove em Sepetiba.

“Com a retirada desse lixo dos manguezais, estamos contribuindo para que o ambiente realize os seus serviços ecossistêmicos de forma mais eficiente, fomentando a sociobiodiversidade. E, utilizando a mão de obra dos pescadores e catadores de caranguejo, também contribuímos com a socioeconomia”, destaca o gerente operacional do Projeto Do Mangue ao Mar, Rodrigo Gaião.

De acordo com dados da pesquisa Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2023, produzido pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), a estimativa é que cada brasileiro produza, em média, 1 kg de resíduos sólidos urbanos por dia. E, infelizmente, muitos desses materiais vão parar nos manguezais, como demonstra a Operação LimpaOca.

O plástico, a exemplo de edições anteriores da Operação, é o tipo de material mais encontrado, representando 98,48% do total de resíduos em unidades e 83,28% do total em peso, retirados das duas baías.

A Operação LimpaOca se estenderá até setembro deste ano, com mais uma turma de profissionais na Baía de Guanabara e duas na Baía de Sepetiba.

Veja os demais tipos de resíduos coletados até agora na tabela:

QUANTITATIVO DE UNIDADES POR CLASSE
Baía de GuanabaraBaía de Sepetiba
KgUnid.KgUnid.
Plástico36.652,51.048.686Plástico1.695,526.848
Borracha1.3552.998Borracha622,54.029
Madeira644686Madeira1862
Prod. Têxteis2.9614.303Prod. Têxteis316932
Metal00Metal445
Vidro8071.511Vidro457,52.091
Mat. de Pesca00Mat. de Pesca2129
Outros Resíduos466,577Outros Resíduos42,54
TOTAL42.8861.058.261TOTAL3.17734.040

Sobre a LimpaOca

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Foto: Rodrigo Campanário

A Operação LimpaOca é a maior limpeza dos manguezais da Baía de Guanabara e ocorre no período de defeso do caranguejo-uçá. O trabalho foi idealizado pelo catador de caranguejo Sr. Adílio Campos, da Ilha de Itaoca, em 2001, e se tornou uma ação continuada da ONG Guardiões do Mar.

A ação agora é replicada pelo Projeto Do Mangue ao Mar — em parceria com a Transpetro. A expertise da instituição mostra que recuperar os manguezais — que estão sendo perdidos em uma taxa até quatro vezes mais alta do que outras florestas — é possível mesmo em áreas densamente povoadas.

Além da renda extra garantida aos trabalhadores durante o período de defeso do caranguejo-uçá, outra vantagem da Operação, de acordo com o presidente da ONG Guardiões do Mar, Pedro Belga, é que, após o defeso, esses profissionais poderão voltar a trabalhar com mais segurança nos manguezais, devido à retirada de materiais como ferro, seringas, vidros e diversos itens cortantes, que podem ocasionar graves acidentes. “Muito além de catar lixo, são disseminados conhecimentos e promovidas boas práticas para esta parcela da sociedade que entende, na prática, que o manguezal, além da importância ambiental, é sua principal fonte de renda. Sem mangue, sem peixe”, afirma.

Graças aos esforços, mais de 100 toneladas de lixo (como embalagens plásticas, capacetes, pneus, sofás, geladeiras e brinquedos) foram removidas de 57 hectares do recôncavo da Guanabara pela Guardiões do Mar.

“Poucos imaginam, mas é enorme a quantidade de vida que ainda existe aqui. Temos colhereiros-rosas, golfinhos, lontras. Todos dependem de nós e nós deles. Por isso não desistimos”, conta Alaido Malafaia, da Cooperativa Manguezal Fluminense.

O presidente da Associação de Catadores de Caranguejo de Magé (ACCAM), Rafael dos Santos, reforça ainda a importância de ações de limpeza para o Turismo de Base Comunitária. “É muito importante quando o manguezal se encontra digno para receber visitantes interessados em apreciar as espécies, como o caranguejo-uçá. Essa limpeza realizada pela Guardiões do Mar não tira só o lixo grande, mas também o microlixo, e vai no profundo do manguezal, sendo muito importante para mostrar a situação, o respeito que temos e a grande relevância desse ecossistema”, conta.

Sobre o Projeto Do Mangue ao Mar

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Foto: Rodrigo Campanário

Realizado pela ONG Guardiões do Mar, em convênio com a Transpetro — une ambientalistas, lideranças e juventude de comunidades tradicionais (pescadores artesanais, caiçaras, catadores de caranguejo, indígenas e quilombolas) para fomentar o protagonismo dos povos do mar. Juntos, eles buscam soluções para os problemas socioambientais diagnosticados, incentivam o turismo de base comunitária com a valorização da cultura local, além de realizarem formações continuadas, atividades de educação ambiental crítica, pesquisas e eventos no entorno das baías de Guanabara e Sepetiba.

Atuando com conservação de manguezais e democratização de conhecimento sobre os ambientes costeiros marinhos, o projeto oferece pagamento de serviço ambiental para catadores de caranguejo e pescadores artesanais, via transferência de renda para trabalho de limpeza nos manguezais. Eles são importantes aliados no combate a emergências climáticas, além de oferecerem serviços ecossistêmicos que fomentam a socioeconomia e sociobiodiversidade local.

O Projeto é parceiro oficial no Brasil para a Década das Nações Unidas para Restauração de Ecossistemas (2021-2030), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e um dos signatários do Plastic no Thanks, movimento que trabalha para mitigar as consequências da produção, do consumo e do descarte de plásticos.

Com informações da ONG Guardiões do Mar e Transpetro.

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