Estudo da USP e da UFRJ revela como o sistema digestivo da Periplaneta americana degrada fibras da cana e pode revolucionar a produção de etanol sustentável.
Por: Redação Portal Sustentabilidade
Pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram que o sistema digestivo da barata Periplaneta americana, espécie comum em áreas urbanas, pode fornecer pistas valiosas para tornar a produção de etanol mais barata, sustentável e eficiente. O estudo, publicado na revista BioEnergy Research, mostra que esses insetos são capazes de degradar fibras vegetais, como o bagaço da cana-de-açúcar, de forma surpreendentemente eficaz.
Embora muitas vezes associadas à sujeira e à repulsa, as baratas são detritívoras e desempenham um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas, atuando como “faxineiras” ao consumir matéria orgânica em excesso. Essa diversidade alimentar levou à evolução de um sistema digestivo altamente adaptado, capaz de processar desde folhas secas até restos de madeira — justamente a característica que despertou o interesse dos cientistas brasileiros.
Como funciona a digestão das baratas

O intestino da barata atua como uma verdadeira linha de produção. O processo começa no foregut, onde dentes de quitina trituram as fibras do bagaço, reduzindo em mais de 90% o tamanho das partículas. Em seguida, no midgut, um conjunto de enzimas — entre elas glicosil hidrolases — quebra os polissacarídeos da parede celular, liberando açúcares essenciais como glicose, xilose e galactose. Por fim, no hindgut, microrganismos especializados completam a degradação.
Os testes revelaram que as baratas conseguem absorver cerca de 50% da glicose celulósica, além de até 26% da xilose e 21% da arabinose presentes na biomassa. Já a lignina, que representa cerca de 20% da parede celular da cana, permanece praticamente intacta — um desafio ainda não superado em processos industriais.
Segundo os pesquisadores, o objetivo não é criar “usinas de baratas”, mas sim identificar e reproduzir o coquetel enzimático responsável pela digestão eficiente. “Queríamos entender quais enzimas e quais estruturas estão envolvidas na degradação da biomassa. Ao descobrir isso, podemos pensar em aplicações industriais que tornem a produção de energia mais eficiente”, explica Marcos Buckeridge, professor do IB-USP.
Impacto ambiental e futuro da pesquisa

O entomólogo Ednildo Machado, da UFRJ, reforça a importância da biomimética — ciência que busca inspiração nos processos naturais para desenvolver soluções humanas. “O que estamos fazendo é olhar para a natureza e copiar o que ela já resolveu há milhões de anos”, afirma.
Essa abordagem pode reduzir os custos de produção do etanol de segunda geração, obtido a partir do bagaço e da palha da cana, materiais normalmente descartados ou pouco aproveitados. Com maior eficiência no uso da biomassa, seria possível produzir mais combustível em menos área, diminuindo a pressão por novas plantações e liberando espaço para recuperação florestal.
O Brasil é líder mundial na produção de etanol, combustível renovável que já substitui parte da gasolina em veículos. No entanto, a produção ainda enfrenta barreiras tecnológicas e financeiras, especialmente na etapa de conversão de fibras vegetais em açúcares fermentáveis. A replicação do processo digestivo das baratas pode ser a chave para superar esses desafios, reduzindo a dependência de produtos químicos agressivos e de altas temperaturas, que encarecem a produção e aumentam os impactos ambientais.
Além das baratas, os cientistas também investigam outros insetos, como cupins e tenébrios, que apresentam ainda maior capacidade de degradar celulose. Os cupins, por exemplo, chegam a decompor quase 90% da fibra vegetal, o que pode ampliar as possibilidades de aplicação industrial.
Para Buckeridge, a aposta em soluções inspiradas na natureza é um passo essencial para enfrentar as crises climática e energética. “Esses são os melhores processos: soluções baseadas na natureza. A seleção natural já fez os testes ao longo de milhões de anos. Cabe a nós aprender e aplicar esse conhecimento para um futuro mais sustentável.”
Fonte: Jornal da USP









