Soluções baseadas na natureza podem mudar o futuro das periferias brasileiras

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Iniciativas que unem resiliência climática e inclusão social apontam novos caminhos para territórios historicamente vulnerabilizados.

A COP30 deixou claro que a crise climática não pode mais ser tratada como abstração, ao reforçar a urgência de ações concretas de adaptação e mitigação diante do aumento de eventos extremos e da vulnerabilidade social nas cidades. No Brasil, os centros urbanos concentram problemas históricos: bairros periféricos convivem diariamente com enchentes, calor excessivo, deslizamentos e falta de saneamento, evidenciando a exclusão social em sua forma mais visível.

Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), nos últimos 30 anos mais de 20 mil eventos climáticos extremos resultaram em quase 4 mil óbitos e afetaram 8,2 milhões de pessoas desalojadas ou desabrigadas, enquanto cerca de 35% dos municípios seguem vulneráveis a condições climáticas severas. Esses números reforçam que a adaptação urbana precisa ir além de soluções técnicas isoladas e considerar, de forma central, a justiça social.

É nesse cenário que as Soluções Baseadas na Natureza (SBN)  ganham relevância ao propor respostas integradas capazes de enfrentar simultaneamente desafios ambientais e sociais. Elas combinam proteção, restauração e uso inteligente de áreas naturais ou modificadas, gerando benefícios para a biodiversidade, o bem-estar humano e a resiliência climática. Mais do que intervenções ambientais, essas iniciativas funcionam como instrumentos de transformação social, especialmente em territórios periféricos historicamente negligenciados.

Exemplos já em uso

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Foto: ARIES

Experiências concretas ilustram essa potência. Os Jardins Filtrantes no Recife (PE), iniciativa desenvolvida pela ARIES através do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e o Parque Linear Raquel de Queiroz, em Fortaleza (CE), ambos apresentados na revista Parcerias Estratégicas do CGEE, mostram como soluções baseadas no meio natural reduzem alagamentos, ampliam cobertura vegetal e criam espaços de convivência comunitária. Esses resultados evidenciam que inovação urbana, resiliência e justiça climática podem caminhar juntas, oferecendo alternativas viáveis às infraestruturas cinzas tradicionais e gerando impactos reais na vida das pessoas.

Avanços institucionais também começam a redesenhar o cenário nacional. O programa “SBN nas Periferias”, da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, e o edital “Periferias Verdes Resilientes”, realizado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, destinam recursos a projetos em comunidades como Maré (Rio de Janeiro), Izidora (Belo Horizonte), Nova Centreville (Santo André) e Recife (Pernambuco). Trata-se de investimentos que ultrapassam a implantação física das intervenções, abrangendo capacitação comunitária, governança local e manutenção das estruturas, elementos fundamentais para assegurar impacto duradouro. Assim, as políticas públicas funcionam como um elo entre conhecimento técnico e necessidades reais das comunidades, demonstrando que a resiliência urbana depende tanto de planejamento estratégico quanto de participação social.

Ainda assim, a implementação de Soluções Baseadas na Natureza em áreas periféricas enfrenta desafios técnicos relevantes, como infraestrutura precária, ocupações densas e características específicas do solo. Nesse sentido, universidades e centros de pesquisa assumem papel decisivo: são responsáveis por formar especialistas, desenvolver métodos e produzir evidências capazes de orientar projetos adaptados às realidades locais. Investir na educação e no fortalecimento dessas instituições amplia a capacidade de desenvolver estudos, técnicas e modelos realmente alinhados às necessidades dos territórios.

Transformar vulnerabilidades urbanas exige compreender que a dimensão social é inseparável da ambiental. Apostar em soluções baseadas na natureza nas periferias é reconhecer que desigualdades históricas podem, e devem, ser enfrentadas por meio de ciência, tecnologia, participação comunitária, planejamento estratégico, governança local e financiamento consistente. Quando bem conduzidas, essas iniciativas reduzem alagamentos, ampliam áreas verdes, geram empregos verdes e fortalecem a autonomia dos moradores. Ignorar esse potencial apenas perpetua desigualdades; por outro lado, investir nessas potencialidades de forma crítica e participativa tornam-a instrumentos de equidade capazes de transformar territórios vulneráveis em espaços resilientes, inovadores e inclusivos, e garantir que todos façam parte de um futuro urbano mais justo.

Por: Mariana Pontes, diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES). Além disso, Mariana é Arquiteta e Urbanista com foco em gestão de projetos de desenvolvimento sustentável. Com um MBA em Gestão de Projetos e Mestrado em Desenvolvimento Urbano, ela alia seu conhecimento teórico à prática, obtendo a certificação PMP. Com experiência no ensino de Arquitetura e Urbanismo, Mariana lidera hoje um time multidisciplinar no desenvolvimento de projetos urbanos, focando em inovação, inclusão e diversidade. Seu compromisso vai além da gestão, priorizando a integração de todas as vozes no planejamento das cidades do futuro.

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