Estudo revela resiliência de águas subterrâneas da Bacia do Paranapanema mesmo em períodos de seca

Pesquisadores da Unesp defendem uso estratégico dos recursos hídricos e integração entre informações dos aquíferos e das águas superficiais.

Entre as principais consequências das mudanças climáticas está a alteração dos padrões pluviométricos, fator que colabora para a ocorrência de eventos extremos que afetam diretamente a vida das pessoas, como as enchentes e os alagamentos ou longos períodos de estiagem. A falta de chuvas, particularmente, tem exigido atenção dos gestores públicos quanto ao gerenciamento adequado dos recursos hídricos, o que contempla não apenas as águas superficiais, como rios, lagos e barragens, mas também as águas subterrâneas, como lençóis freáticos e aquíferos, que em muitas cidades do país já respondem pelo abastecimento parcial ou total da água destinada ao consumo humano.

Nos últimos dez anos, foram pelo menos dois episódios de estiagem que despertaram o alerta das autoridades paulistas sobre a segurança hídrica. Em 2014, a escassez de chuvas afetou o abastecimento de milhões de moradores da Grande São Paulo, exercendo forte pressão sobre as águas superficiais e reduzindo o volume dos mananciais que abastecem a região mais populosa do país a marcas historicamente baixas. Em 2018, foi a vez da Bacia do Paranapanema entrar na berlinda, a ponto de a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) implementar uma sala de crise para auxiliar os comitês da bacia a lidar com a crescente escassez de água. Em virtude deste cenário, soluções individuais e improvisadas que garantissem a segurança hídrica surgiram pela região, entre elas a perfuração indiscriminada de poços clandestinos. 

Corrida por águas subterrâneas

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Foto: ctgbr

Essa “corrida” por águas subterrâneas ainda não foi estudada do ponto de vista hidrológico, mas as consequências já são perceptíveis, com conflitos entre os diferentes perfis de usuários da água e questionamentos sobre o direito de explorar as reservas subterrâneas sem licenciamento. A bacia hidrográfica do Paranapanema é um cenário propício para esse tipo de embate. Encravada no Sudeste do Brasil, entre os estados de São Paulo e Paraná, a região da bacia é um polo hidrelétrico e agrícola que ocupa mais de 100 mil km² e tem sido afetada por crises hídricas de forma mais intensa nos últimos 5 a 10 anos, devido principalmente à baixa taxa de precipitação. Além disso, entre 2010 e 2022, a população que vive no território da bacia aumentou em 1.690.840 habitantes, segundo dados oficiais do censo do IBGE.

O hidrólogo Rodrigo Manzione há anos tem se dedicado a entender a dinâmica hidrológica e as consequências da perfuração indiscriminada de poços, no intuito de investigar suas consequências e colaborar com os gestores públicos na tomada de decisões baseados em dados confiáveis e na ciência. Em um artigo publicado na revista Groundwater for Sustainable Development, o professor da Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação (FCTE) da Unesp, no câmpus de Ourinhos, usou de forma inédita informações da superfície terrestre coletados em campo e dados observacionais obtidos a partir dos satélites de um projeto em parceria da Nasa com o Centro Aeroespacial Alemão chamado Gravity Recovery and Climate Experiment (Grace). O projeto foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia (Mestrado Profissional), uma parceria entre a Unesp e os comitês de bacias hidrográficas da região, que tem entre os seus objetivos aproximar a produção científica das demandas locais.

Formado por um par de satélites, o Grace é capaz de captar variações no campo gravitacional da Terra relacionadas à presença de massas de água. Os dados obtidos pelo projeto têm ajudado a comunidade científica mundial em pesquisas sobre águas subterrâneas, derretimento de geleiras e nível dos mares. No caso do trabalho publicado pelo docente, o recurso permitiu mapear e monitorar, em um intervalo de tempo entre 2003 e 2020, o armazenamento de água subterrânea na bacia do rio Paranapanema. “A ideia do artigo foi transformar dados brutos, produzidos por satélites, em informação útil para a gestão dos recursos hídricos”, explica o professor. “O dado por si só é frio. A análise espacial e temporal é que permite entender onde estão as reservas de água, como elas se comportam ao longo do tempo e como isso pode ajudar no planejamento”, destaca.

Pontos de maior armazenamento seguem relativamente estáveis

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Foto: ctgbr

Entre os resultados encontrados por Manzione e pela mestranda Carolina Brizotti, coautora do trabalho, está a constatação de que, apesar da estiagem observada na Bacia do Paranapanema e do aumento na perfuração dos poços, não foram observadas tendências de quedas significativas no nível das águas subterrâneas na bacia, que compreende os aquíferos Guarani, Serra Geral e Bauru, fato que revela a resiliência desse recurso mesmo em períodos de estresse hídrico. 

O processamento computacional dos dados fornecidos pelos satélites do projeto GRACE permitiu aos pesquisadores identificar padrões persistentes de armazenamento hídrico e estabelecer áreas com maior e menor variação de reservas, que receberam os nomes de hotspots e coldspots, respectivamente. “No estudo, observamos que regiões de cabeceira, onde a ocupação urbana é menor e há mais vegetação nativa, concentram naturalmente maiores reservas. Mas isso não significa, por si só, que sejam áreas mais ‘ricas’ em termos de disponibilidade hídrica. É uma questão de potencial exploratório e uso planejado”, detalha o pesquisador.

Com a ajuda do GRACE, a equipe da Unesp também mapeou os compartimentos de água livre, isto é, os aquíferos não confinados, mais próximos da superfície. Segundo Manzione, as observações do satélite não detectam diretamente aquíferos profundos como o Guarani, mas capta variações em massas de água nas camadas superficiais, como nos aquíferos Bauru e Serra Geral. “O satélite detecta o ‘peso’ da água no campo gravitacional. Quando essa massa aumenta ou diminui, ele consegue captar essa amplitude”, explica.

O avanço metodológico do estudo esteve na aplicação de uma análise estatística espaço-temporal para avaliar a persistência das reservas ao longo dos anos. O resultado mais relevante, segundo o pesquisador, foi a constatação de que os hotspots de armazenamento hídrico são relativamente estáveis. Portanto, mantêm suas reservas mesmo em períodos de seca. “Isso reforça a ideia de que a água subterrânea é uma fonte confiável, menos suscetível às flutuações climáticas de curto prazo. Ela confere resiliência aos sistemas de abastecimento, principalmente em momentos de crise hídrica”, afirma Manzione.

Para o pesquisador, a estabilidade identificada pelo estudo reforça a necessidade de incluir o monitoramento e o uso planejado das águas subterrâneas como componentes centrais da gestão de recursos hídricos. E isso passa por integrar esses dados aos planos de bacia, instrumento de planejamento previsto na legislação brasileira, mas que ainda apresenta lacunas importantes em relação ao uso da água do subsolo. “Hoje, muitas decisões são tomadas sem considerar essas informações. Saber onde estão os pontos de maior reserva, por exemplo, pode orientar a expansão urbana, a localização de polos industriais ou a priorização de áreas para irrigação”, destaca o professor.

Com informações da Unesp

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