Usando frutos do cerrado, estudantes de escola pública de Goiás desenvolvem plástico biodegradável e larvicida contra a dengue – projeto conquistou 3º lugar em prêmio nacional 

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Iniciativa desenvolvida por alunas do Ensino Médio Integral em Luziânia (GO) transforma casca de jatobá em soluções sustentáveis, com potencial para substituir plásticos e inseticidas químicos. 

Por: Vanessa Menezes – Assessora de Imprensa

De uma simples curiosidade em sala de aula nasceu uma proposta científica premiada. Ana Luiza Mendes Barfknecht e Isadora Rodrigues Rapatoni, estudantes do 2º ano do Ensino Médio Integral no Centro de Ensino em Período Integral (CEPI) Osvaldo da Costa Meireles, em Luziânia (GO), desenvolveram um bioplástico biodegradável e um larvicida natural a partir da casca do jatobá-do-cerrado. Combinando pesquisa, criatividade e compromisso ambiental, a dupla criou alternativas sustentáveis para dois desafios urgentes: o excesso de plástico e a proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Para Gabrielle Rosa Silva, professora de Biologia e orientadora da iniciativa, o projeto é reflexo do que acontece quando os estudantes têm espaço para transformar inquietações em propostas concretas. “Tudo começou com uma conversa sobre a quantidade de lixo plástico e os surtos de dengue que estavam acontecendo na cidade. Elas trouxeram essa preocupação para a sala e, a partir disso, fomos construindo juntas um caminho de pesquisa, testes, erros e descobertas. Com tempo, escuta e orientação, a ideia ganhou força e virou um trabalho científico robusto e relevante. A modalidade integral permite esse processo: cria as condições para que os estudantes explorem seus interesses de forma profunda e conectada com o território. É muito potente ver duas jovens usando a ciência como ferramenta para propor soluções que impactam o coletivo”, afirma.

Ciência aplicada ao Cerrado 

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Foto: Reprodução/Pexels

A escolha da casca do jatobá, planta típica do Cerrado, surgiu do desejo de valorizar os recursos do próprio território e, ao mesmo tempo, propor alternativas sustentáveis com base em materiais acessíveis. A professora trouxe para a escola pública parte da experiência que acumulou como pesquisadora, tornando a prática de laboratório uma vivência concreta para as estudantes, o trabalho seguiu os passos da metodologia científica: formulação de hipóteses, pesquisa, testes sucessivos, registro em diário de bordo e validação por meio da repetição dos experimentos.

Mais do que os resultados, o que marcou o percurso foi o envolvimento ativo das estudantes em todas as etapas do processo. O projeto exemplifica o princípio do “aprendizado na prática”, um dos pilares do Ensino Médio Integral, e demonstra como o ambiente escolar pode se tornar um verdadeiro espaço de pesquisa e experimentação científica.

“Foi tudo muito novo para a gente. No começo parecia impossível chegar a um resultado, mas com pesquisa, paciência e muita tentativa, conseguimos. O mais legal foi perceber que a gente podia fazer ciência de verdade, com nossas próprias mãos e ideias”, relembra Ana Luiza.

Reconhecimento além da escola 

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Foto: Reprodução/Pexels

O projeto teve início na feira de Ciências e Tecnologia organizada pelo próprio CEPI Osvaldo da Costa Meireles. A proposta chamou atenção desde os primeiros testes e, com o amadurecimento da pesquisa, foi selecionada para a Febrace 2025 — a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, organizada pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e considerada a maior mostra científica estudantil do país. Entre mais de 2,7 mil trabalhos inscritos, o projeto representou o estado de Goiás, ficando entre os 100 melhores cientistas jovens do país. Além da Febrace, a proposta também recebeu o 3º lugar na FEBRATEC (Feira Brasileira de Tecnologia e Ciências), e foi credenciada para a FEBIC (Feira Brasileira de Iniciação Científica) e para a FEMIC (Feira Mineira de Iniciação Científica). O reconhecimento se estendeu ainda à 12ª Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente, promovida pela Fundação Oswaldo Cruz, que destacou o trabalho entre os projetos voltados à temática socioambiental.

Mais do que os prêmios, a participação em eventos científicos permitiu às estudantes viverem novas experiências, trocarem com pesquisadores de diferentes regiões e perceberem que ideias desenvolvidas dentro da escola pública podem ter relevância nacional.

“Quando falaram que tínhamos ficado entre os finalistasa Febrace, eu quase não acreditei. Nunca imaginei que algo que fizemos na escola, com as coisas que a gente tinha, ia ser reconhecido desse jeito. Foi aí que caiu a ficha de que a gente tinha feito algo realmente importante”, conta Isadora.

Protagonismo que transforma 

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Foto: Reprodução/Pexels

A trajetória das estudantes é reflexo de uma escola que acredita no potencial dos jovens e investe em experiências de formação conectadas com os desafios do mundo real. O projeto ganhou força dentro do modelo de Ensino Médio Integral, que proporciona mais tempo, estrutura e autonomia para que ideias autorais sejam desenvolvidas com profundidade. A experiência impactou não apenas as alunas envolvidas, mas também colegas, professores e toda a comunidade escolar.

“Quando a gente confia nos estudantes e oferece espaço para eles explorarem suas ideias, os resultados aparecem. Esse projeto mostrou que a escola pode ser, sim, um lugar de pesquisa, criação e transformação social”, afirma Valmir Gomes da Silva, diretor da unidade.

O Ensino Médio Integral é uma proposta pedagógica multidimensional, moderna, nacional, pública e gratuita. A partir de um modelo de ensino que se conecta à realidade dos jovens e ao desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, propõe a formação integral dos estudantes. Trabalha pilares como projeto de vida, aprendizado na prática, tutoria, protagonismo juvenil, acolhimento, orientação de estudos e eletivas, que promovem a formação completa do estudante, junto aos componentes curriculares já previstos na BNCC. Está presente em cerca de 6 mil escolas em todo o país, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes.

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