Área do antigo Downsview Airport dará lugar a sete bairros integrados, com moradia para mais de 50 mil pessoas, parques, mobilidade ativa e foco em sustentabilidade ao longo de 30 anos.
Por: Redação Portal Sustentabilidade
Um antigo aeroporto no noroeste de Toronto, no Canadá, está prestes a passar pela maior transformação de sua história e dar lugar a um dos maiores projetos de reurbanização urbana da América do Norte. Conhecido como YZD, em referência ao código de chamada do antigo Downsview Airport, o espaço de 370 acres (cerca de 1,5 milhão de metros quadrados) será convertido, ao longo de 30 anos, em um complexo urbano sustentável avaliado em US$ 30 bilhões.
O projeto prevê a criação de sete bairros integrados, com moradias para mais de 50 mil pessoas, além de parques, áreas verdes, escolas, bibliotecas, comércios, centros comunitários e espaços de trabalho. A proposta é redefinir o conceito de qualidade de vida urbana, priorizando mobilidade ativa, sustentabilidade ambiental e integração com a infraestrutura já existente da cidade.
De polo aeronáutico a novo distrito urbano

O Downsview Airport tem uma longa trajetória ligada à aviação canadense. O primeiro campo de pouso foi instalado no local há cerca de 100 anos, inicialmente cercado por áreas rurais. Posteriormente, tornou-se sede da De Havilland Canada, referência mundial na indústria aeronáutica, e foi um importante centro de produção de aviões militares durante a Segunda Guerra Mundial.
Nos anos 1990, o aeroporto foi adquirido pela Bombardier, outra gigante do setor aeroespacial, permanecendo em operação até 2024, quando foi oficialmente desativado após a transferência das atividades da empresa. A partir de 2026, o espaço passará a abrigar um amplo canteiro de obras que marcará o início de sua nova fase.
O elemento central do antigo aeroporto — uma pista de pouso com cerca de 2 quilômetros de extensão — será transformado em um parque linear totalmente voltado a pedestres, funcionando como eixo de ligação entre os sete bairros planejados. Cada distrito terá identidade própria, com serviços e equipamentos públicos, enquanto o antigo traçado da pista atuará como “tecido conector” do novo espaço urbano.
Segundo Derek Goring, CEO da Northcrest Developments, empresa responsável pelo projeto, preservar e reinterpretar a história do local é um dos pilares da iniciativa. “Aproveitar o que já existe evita que grandes projetos urbanos se tornem genéricos. A herança aeroespacial do local traz caráter e singularidade”, afirmou.
Sustentabilidade e reaproveitamento de estruturas

A preservação de edifícios históricos também tem motivação ambiental. De acordo com a Northcrest, a reutilização dos antigos hangares — construídos entre as décadas de 1950 e 1990 — reduz significativamente a emissão de carbono associada a demolições e novas construções. Essas estruturas serão adaptadas para abrigar atividades como produção audiovisual, manufatura leve e empresas de tecnologia limpa.
Os telhados dos hangares receberão cobertura vegetal, com o objetivo de absorver água da chuva, reduzir riscos de enchentes e estimular a biodiversidade urbana. Já o concreto e o asfalto da pista serão reaproveitados como material para pavimentação e infraestrutura interna do projeto.
A empresa também informou que contratou consultores ambientais especializados para lidar com eventuais passivos ambientais ligados ao uso industrial e militar histórico da área, incluindo a mitigação de possíveis contaminantes no solo e na água subterrânea.
O desenho paisagístico do antigo eixo de pouso ficará a cargo do escritório Michael van Valkenburgh Associates (MVVA), vencedor de um concurso internacional realizado em 2024. A proposta busca restaurar ecossistemas nativos, resgatando características da antiga Floresta Caroliniana, que ocupava a região antes da urbanização.
O plano inclui a criação de habitats naturais, incentivo ao retorno da fauna local e soluções baseadas na natureza para gestão da água, como biossistemas de drenagem (bioswales), capazes de absorver e filtrar a água da chuva, reduzindo riscos de alagamentos em áreas vizinhas.
Mobilidade e cidade do futuro

O projeto YZD está inserido em uma área já atendida por linhas de trem e metrô, o que permitirá priorizar deslocamentos a pé, de bicicleta e por transporte coletivo. Estão previstas ciclovias amplas, rotas seguras para pedestres e um sistema de ônibus de curta distância para conexões internas. A circulação de carros será permitida, mas limitada, com exceção do parque linear, que será totalmente livre de veículos.
A Northcrest também trabalha em parceria com o escritório dinamarquês SLA, referência internacional em urbanismo sustentável, para aplicar o conceito de “City Nature”, que integra áreas verdes extensas ao cotidiano urbano como estratégia de adaptação climática e melhoria da qualidade de vida.
A construção do primeiro bairro, batizado de Hangar District, ocupará cerca de 100 acres e contará com aproximadamente 3 mil moradias. As obras devem começar no início de 2026, com conclusão prevista para 2031. As demais fases serão implantadas gradualmente ao longo de três décadas.
Segundo Goring, o projeto será financiado por etapas, com reinvestimento contínuo dos retornos obtidos, permitindo flexibilidade para que o plano evolua conforme mudanças sociais, econômicas e climáticas ao longo do tempo.
“Não estamos tentando definir agora como será o mundo daqui a 30 anos. O objetivo é criar um lugar que se adapte às transformações e, acima de tudo, ofereça alta qualidade de vida e se integre de forma orgânica à cidade de Toronto”, afirmou.
Com isso, o antigo aeroporto abandonado deve se tornar um novo marco urbano, combinando memória histórica, sustentabilidade ambiental e inovação em planejamento urbano.
Fonte: YZD









