
Potencial do Brasil para restauração de áreas degradadas e preservação de florestas nativas coloca o país como protagonista da nova economia da natureza.
Por: Fábio Farias
A Earthshot Labs, empresa global de inteligência ecológica e desenvolvimento de projetos de carbono e biodiversidade, instalou no Brasil a primeira unidade da empresa fora dos Estados Unidos. O interesse crescente de investidores e desenvolvedores no mercado brasileiro de créditos de carbono torna o país estratégico para os planos de negócios da companhia.
Criada na Califórnia, EUA, em 2021, pelos empreendedores da área de tecnologia Troy Carter e Patrick Leung, a empresa reúne cientistas, especialistas em sensoriamento remoto e inteligência artificial com foco no desenvolvimento de soluções para reduzir custos, prazos e incertezas técnicas na geração de créditos de carbono e na recuperação de ecossistemas. A empresa já conduziu 75 projetos em mais de 30 países, junto às principais certificadoras do mercado, como Verra, Gold Standard, Isometric, Equitable Earth, ACR e Plan Vivo.
O primeiro trabalho realizado no Brasil, ainda pela matriz norte-americana, foi iniciado em 2023. Desde então, o país ocupa posição estratégica na companhia. Em 2025, 40% dos projetos da Earthshot Labs já estavam concentrados em território brasileiro, abrangendo iniciativas de restauração e conservação florestal na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
A unidade nacional nasce com equipe totalmente brasileira e especializada em mercado de carbono, finanças climáticas, e metodologias internacionais. “A relação da Earthshot Labs com o Brasil sempre foi muito maior do que uma oportunidade de mercado. O país reúne alguns dos profissionais mais qualificados do mundo em restauração ecológica e concentra uma parcela decisiva das soluções climáticas globais. Nossa decisão de estabelecer uma operação local reflete a confiança no potencial brasileiro para liderar essa transformação”, afirma Troy Carter, cofundador e CEO da companhia.
Redução de barreiras

A criação da subsidiária brasileira também responde a uma demanda crescente do mercado nacional. É comum que desenvolvedores de projetos, empresas florestais e investidores interessados em contratar tecnologias, auditorias e serviços especializados oferecidos por fornecedores internacionais precisem lidar com estruturas de contratação no exterior, sujeitas à incidência de tributos sobre transações internacionais que podem elevar significativamente os custos da operação.
“O ‘Custo Brasil’ do mercado ambiental é um forte entrave para investimentos em restauração florestal em nosso país”, informa Rita Croce, diretora de Desenvolvimento de Negócios da Earthshot Labs Brasil. “Um desenvolvedor brasileiro precisa contar, na maioria das vezes, com fornecedores internacionais para adquirir tecnologias, mapas, imagens de satélite e outros serviços especializados que podem elevar o custo de um projeto em até 40%. Com um fornecedor técnico dentro do país, esse complicador desaparece”, completa.
Além da barreira fiscal, outro desafio observado por Croce no mercado brasileiro é o descompasso de consultorias estrangeiras que não compreendem as especificidades culturais, jurídicas e ecológicas dos biomas brasileiros. “O Brasil é um país continental, que reúne uma complexidade regulatória e operacional única que pode causar atrasos desnecessários em processos burocráticos”.
No país, a Earthshot Labs já liderou estudos de viabilidade , elaboração de documentos de descrição de projetos (“PDD”, na sigla em inglês), relatórios de monitoramento e devida diligência para investidores. Nos últimos dois anos, mais de 10 organizações contrataram os serviços da empresa para projetos no Brasil. Os clientes atuam nos setores florestal, papel e celulose, agricultura, , desenvolvedores de projetos de carbono e fundos de investimento voltados a soluções baseadas na natureza.
“O Brasil reúne escala, conhecimento técnico, biodiversidade e capacidade de execução como poucos lugares no mundo. Queremos contribuir para que desenvolvedores, investidores e empresas brasileiras tenham acesso às melhores ferramentas científicas disponíveis e possam competir em igualdade de condições no mercado global de carbono e biodiversidade”, destaca Troy Carter.
Consolidação no Brasil

A consolidação da operação brasileira ocorre em um momento de transformação do mercado global de carbono. A entrada em vigor do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), as metas FLAG da SBTi ampliam a demanda por soluções capazes de garantir rastreabilidade, integridade científica e monitoramento ambiental.
Ao mesmo tempo, o Brasil avança na estruturação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), na regulamentação das transações de ITMOS (Internationally Transferred Mitigation Outcomes), na concessão de florestas e outras unidades de conservação públicas para restauração e preservação, entre outras iniciativas que impulsionam o setor nacional de carbono e atraem investimentos.
“O mercado brasileiro amadureceu rapidamente e está no centro do mundo. Hoje, investidores e compradores embasam seus programas de carbono em protocolos rigorosos de integridade, transparência e evidências robustas. Vamos preencher essas lacunas para que o país corresponda a todo potencial que possui e lidere a transição global para uma economia de bases ambientais”, destaca Rita Croce.
Uma das soluções que a Earthshot Labs traz ao Brasil é o LandOS, plataforma proprietária que combina inteligência artificial, sensoriamento remoto, modelagem ecológica e análise geoespacial para acelerar o desenvolvimento de projetos de carbono e biodiversidade. A tecnologia automatiza etapas como estudos de pré-viabilidade, avaliação de elegibilidade e análise de riscos, o que permite que decisões sobre novas áreas para projetos de restauração ou conservação sejam tomadas até dez vezes mais rapidamente com base em evidências científicas.
A plataforma realiza projeções sobre o potencial de captura de carbono e a evolução dos ecossistemas, além de monitorar indicadores como desmatamento, incêndios, secas e outros riscos climáticos por meio de imagens de satélite e modelos preditivos. As análises geradas pelo LandOS são validadas pela equipe científica e apoiam desde a estruturação técnica e financeira de projetos até o monitoramento contínuo exigido por padrões internacionais de certificação e emissão de créditos de carbono.
Experiência internacional

Além da criação da unidade no Brasil, a Earthshot Labs participa de alguns dos projetos de restauração ecológica de relevância no mercado internacional. Entre eles está o Tond Tenga, em Burkina Faso, primeiro projeto registrado sob a metodologia VM0047 da Verra, considerada um dos principais avanços em integridade para projetos de restauração florestal.
A iniciativa, em parceria com a Tree Aid, integra a Grande Muralha Verde africana e prevê a recuperação de quase 13 mil hectares de áreas degradadas, com o plantio de aproximadamente seis milhões de árvores nativas e geração de renda para comunidades locais ao longo de 40 anos.
A empresa também participa do desenvolvimento do programa agroflorestal da Lindt & Sprüngli na Costa do Marfim, iniciativa que prevê expansão para 20 mil hectares, integração de mais de 1,5 milhão de árvores e potencial de redução de cerca de um milhão de toneladas de carbono, além de projetos realizados para organizações como Rio Tinto, BirdLife International e Neya (Grupo Mundys).