
Levantamento do Itaú BBA e da Inter.B aponta crescimento dos aportes no setor, mas ritmo ainda seria insuficiente para alcançar as metas de universalização.
Por: Redação Portal Sustentabilidade
Os investimentos em saneamento básico no Brasil devem alcançar R$ 44,2 bilhões em 2027, maior volume previsto para os próximos anos. A projeção faz parte de um levantamento realizado pelo Itaú BBA em parceria com a consultoria Inter.B.
Entre 2026 e 2030, os investimentos contratados e anunciados para o setor devem somar R$ 201,5 bilhões, equivalente a uma média anual de aproximadamente R$ 40,3 bilhões.
Apesar do avanço, o estudo calcula que o país precisaria investir cerca de R$ 95,2 bilhões por ano para alcançar a universalização dos serviços dentro do prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento.
A legislação tem como referência o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. As metas também são acompanhadas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Brasil pode precisar de R$ 1,2 trilhão em saneamento

A necessidade total de recursos estimada pelo Itaú BBA e pela Inter.B chega a aproximadamente R$ 1,2 trilhão.
O cálculo ajuda a dimensionar a distância entre os investimentos já previstos e os recursos considerados necessários pelo levantamento para ampliar as redes de água e esgoto.
A estimativa, porém, não deve ser tratada como um valor consensual para todo o setor. Outros estudos adotam metodologias e horizontes diferentes.
O BNDES, por exemplo, informa que estimativas do Plansab apontam aproximadamente R$ 332 bilhões em investimentos em abastecimento de água e esgotamento sanitário, considerando valores atualizados para preços de 2025. Desse montante, cerca de R$ 155 bilhões correspondem ao abastecimento de água e R$ 177 bilhões ao esgotamento sanitário.
As diferenças podem estar relacionadas aos períodos analisados, atualização monetária, expansão das redes, manutenção dos ativos existentes e outros componentes considerados em cada cálculo.
Investimentos já vêm aumentando

O setor chegou a R$ 29,5 bilhões em investimentos em 2024, segundo informações reunidas pelo BNDES e atualizadas para valores de 2025.
Caso a projeção de R$ 44,2 bilhões para 2027 se confirme, o volume representará um avanço significativo em relação ao patamar observado poucos anos antes.
O levantamento do Itaú BBA e da Inter.B também aponta maior participação do mercado de capitais no financiamento das empresas de saneamento.
As debêntures incentivadas aparecem entre os principais instrumentos. As emissões realizadas pelo setor já somariam aproximadamente R$ 67 bilhões, segundo os dados apresentados no estudo.
A expansão dos investimentos ocorre após mudanças introduzidas pelo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020.
Além das metas de universalização, o novo ambiente regulatório ampliou a participação de empresas privadas e estimulou concessões dos serviços de água e esgoto em diferentes regiões.
Segundo números da Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon Sindcon), citados na divulgação do levantamento, cerca de 70 leilões foram realizados desde a aprovação do marco, envolvendo R$ 227,5 bilhões em investimentos contratados.
Há ainda mais de 30 projetos em elaboração, abrangendo aproximadamente 640 municípios e cerca de R$ 32 bilhões em investimentos previstos.
Norte e Nordeste concentram novos desafios

Depois de grandes concessões realizadas principalmente no Sul e Sudeste, novos projetos avançam sobre regiões onde a infraestrutura disponível é menor.
Norte e Nordeste apresentam desafios adicionais porque muitos municípios ainda necessitam de expansão significativa das redes de abastecimento e esgotamento sanitário.
Essa realidade pode aumentar a complexidade dos projetos, uma vez que as empresas precisam combinar expansão da cobertura, investimentos elevados e capacidade de pagamento da população atendida.
A universalização, portanto, não depende apenas da realização de novos leilões. O desafio envolve financiamento de longo prazo, segurança regulatória, capacidade de execução das obras e sustentabilidade econômica dos contratos.
É justamente a diferença entre o dinheiro já contratado e a necessidade estimada que aparece como um dos principais pontos do levantamento.
Saneamento continuará exigindo investimentos após universalização

Os R$ 201,5 bilhões previstos entre 2026 e 2030 correspondem a pouco mais de R$ 40 bilhões por ano. O estudo calcula, entretanto, que seriam necessários R$ 95,2 bilhões anuais para atingir a universalização no horizonte analisado.
Isso significa que, mesmo com o pico esperado de R$ 44,2 bilhões em 2027, o investimento permaneceria abaixo da necessidade anual calculada pelos pesquisadores.
A referência de 2033 também possui exceções regulatórias. A ANA prevê situações específicas em que contratos de prestação regionalizada podem ter prazo ampliado mediante comprovação de inviabilidade econômico-financeira, respeitando as condições estabelecidas pela regulação.
A necessidade de recursos não termina quando as metas de cobertura forem alcançadas.
O estudo do Itaú BBA e da Inter.B estima que, depois da universalização, aproximadamente R$ 20 bilhões por ano continuarão sendo necessários para manutenção e renovação da infraestrutura de saneamento.
Redes de distribuição de água, estações de tratamento, sistemas de coleta de esgoto, bombas e demais equipamentos precisam de manutenção permanente e substituição ao longo de sua vida útil.
O cenário projetado para 2027, portanto, representa uma aceleração dos investimentos, mas também evidencia o tamanho do desafio brasileiro: ampliar rapidamente a infraestrutura para atender milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, construir um modelo capaz de sustentar esses serviços nas próximas décadas.
Fonte: CNN