Projeto desenvolvido por cientistas do Brasil e Peru utiliza resíduos do abacate para produzir lipase, enzima essencial para as indústrias de biocombustíveis, alimentos e medicamentos, promovendo inovação e sustentabilidade.
Por: Redação Portal Sustentabilidade
Uma descoberta promissora une inovação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico na América Latina. Pesquisadores do Brasil e do Peru comprovaram que a semente do abacate — antes tratada como lixo agroindustrial — pode se transformar em uma fonte estratégica de lipase, uma enzima de altíssimo valor para indústrias de biocombustíveis, alimentos, cosméticos e medicamentos.
O projeto, desenvolvido por 15 pesquisadores, é liderado pela professora Eliane Pereira Cipolatti, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com apoio da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Também fazem parte da pesquisa as cientistas Luciana Ribeiro Souza e Luciana Marques Porto, especialistas nas áreas de biotecnologia e aproveitamento de resíduos agroindustriais.
Enzima de alto valor

A lipase é uma enzima vital para diversos setores produtivos. Na indústria de biocombustíveis, ela acelera a conversão de óleos em biodiesel. Na indústria alimentícia, melhora textura e sabor de pães e queijos. E no setor farmacêutico, atua na digestão de lipídios e na fabricação de medicamentos. O problema é que a lipase comercial tem alto custo, o que limita seu uso, especialmente em países em desenvolvimento.
A inovação do grupo está na utilização da farinha da semente de abacate, rica em lipídios residuais, como meio para o cultivo de fungos — Rhizopus oryzae e Aspergillus oryzae — capazes de produzir lipase em larga escala. Isso reduz drasticamente os custos de produção da enzima e, ao mesmo tempo, resolve um sério problema ambiental: o descarte de toneladas de sementes de abacate, que representam cerca de 18% do peso da fruta e que geralmente vão parar em aterros sanitários ou lixões.
“Estamos falando de uma solução que une desenvolvimento sustentável, economia circular e geração de valor a partir do que antes era lixo. É a ciência oferecendo respostas concretas aos desafios ambientais e econômicos do nosso tempo”, destaca a professora Eliane Cipolatti.
Transformar resíduos em oportunidades

O impacto vai além. A mesma pesquisa revelou que, além da lipase, a semente e a casca do abacate são fontes riquíssimas de compostos antioxidantes, fundamentais para combater o envelhecimento precoce, prevenir doenças e proteger as células contra danos. Esses bioativos podem ser aplicados na indústria farmacêutica, cosmética e alimentícia, ampliando ainda mais o potencial econômico do projeto.
“Nosso objetivo é transformar resíduos em oportunidades. Esta pesquisa é também um exemplo de como a ciência pode ser uma ferramenta de transformação econômica, social e ambiental, principalmente para os países da América Latina”, reforça a pesquisadora Luciana Ribeiro Souza, que atua diretamente na caracterização dos bioativos.
Brasil e Peru estão entre os cinco maiores produtores de abacate no mundo, com produções anuais que ultrapassam, respectivamente, 340 mil toneladas e 550 mil toneladas. O avanço dessa pesquisa fortalece o desenvolvimento tecnológico regional e valoriza o papel da bioeconomia como motor para a geração de empregos, inovação e preservação ambiental.
Mais do que gerar lucro ou reduzir custos, este projeto mostra como o conhecimento científico pode ressignificar resíduos e construir um futuro mais sustentável — no campo, na indústria e na vida das pessoas.
Fonte: Agência EBC FAPERJ